A Prefeitura de Goiânia intensificou a estratégia de enfrentamento à dengue em 2026 com a incorporação de tecnologia à rotina dos agentes de combate às endemias. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) distribuiu 950 tablets aos profissionais responsáveis por vistorias domiciliares em todas as regiões da capital, com a meta de registrar informações de 2,5 milhões de visitas a imóveis ao longo da operação. O objetivo é acelerar a coleta e o processamento de dados sobre focos do mosquito Aedes aegypti, permitindo respostas mais rápidas do poder público em áreas com maior risco de transmissão.
Com o novo sistema, os agentes passam a registrar em tempo real dados sobre criadouros encontrados, condições dos imóveis, aplicações de larvicidas e orientações prestadas aos moradores. Essas informações, que antes dependiam de formulários em papel e consolidações posteriores, agora alimentam diretamente as bases de dados da vigilância em saúde. Segundo a SMS, a mudança aprimora a precisão das informações e reduz o intervalo entre a identificação de um foco e a adoção de medidas adicionais, como reforço de equipes, ações de limpeza e intensificação de bloqueios vetoriais.
O diretor de Vigilância em Zoonoses da SMS, Carlos Silva Lemos, avalia que o uso dos tablets representa uma mudança operacional relevante para a gestão da dengue em Goiânia. A tecnologia é apresentada como ferramenta de apoio tanto ao planejamento das ações de campo quanto ao monitoramento contínuo dos indicadores de risco, em um cenário de elevada circulação do vírus no país e de pressão sobre os serviços de saúde. A estratégia se insere no contexto da Operação de Enfrentamento à Dengue 2026, lançada no início de fevereiro pelo prefeito Sandro Mabel.
Operação 2026 prioriza imóveis de risco e resposta rápida
O cronograma da Operação de Enfrentamento à Dengue 2026 prevê inspeções em 1.116 imóveis classificados como de risco à saúde pública. Nesse grupo estão, em especial, edificações abandonadas, desocupadas ou com histórico de reincidência de focos do Aedes aegypti, além de locais com acúmulo de materiais que possam servir como criadouros. As visitas são realizadas por equipes da Secretaria Municipal de Saúde, com apoio da Guarda Civil Metropolitana (GCM) de Goiânia e de chaveiros, que atuam na abertura controlada de imóveis fechados.
De acordo com a SMS, a digitalização das informações de campo tem papel central na priorização desses endereços. Ao registrar dados diretamente nos tablets, os agentes fornecem à gestão municipal um panorama atualizado das áreas mais vulneráveis, permitindo remanejamento de recursos, redirecionamento de equipes e programação de ações complementares de limpeza urbana e manejo ambiental. A integração entre vigilância em saúde e serviços de limpeza é apontada como elemento chave para reduzir criadouros e interromper cadeias de transmissão.
Além da vistoria e eliminação de focos, as equipes realizam orientações aos moradores sobre armazenamento adequado de água, manejo de resíduos sólidos e manutenção de áreas externas. Esses dados também são inseridos nos tablets, criando um histórico de intervenções por imóvel e por região. Na avaliação da gestão municipal, a combinação de monitoramento tecnológico e ação presencial em campo busca conferir maior racionalidade às políticas de controle vetorial.
Base legal para entrada em imóveis abandonados
A entrada em imóveis abandonados ou desocupados, um dos eixos da operação em Goiânia, fundamenta-se na Lei Federal nº 13.301/2016. A norma autoriza o ingresso de agentes de saúde em bens públicos e particulares em situação de abandono, na ausência de responsável ou em caso de recusa de acesso, quando a medida for considerada essencial para conter surtos de doenças causadas por vetores, como dengue, chikungunya e zika.
Em Goiânia, a aplicação da lei é operacionalizada com o apoio da Guarda Civil Metropolitana e de chaveiros cadastrados, que acompanham as equipes da saúde nas ações programadas. Após a conclusão das atividades de vistoria e controle, os imóveis são novamente fechados, com registro das condições em que foram encontrados e devolvidos. A prefeitura afirma que essa rotina busca conciliar a necessidade de intervenção sanitária com a preservação da integridade física dos bens e da segurança patrimonial.
O uso desse instrumento legal tornou-se recorrente em centros urbanos onde a proliferação do Aedes aegypti encontra terreno em imóveis vazios, terrenos com acúmulo de entulho e estruturas em desuso. Ao incluir esses locais na estratégia de combate à dengue, a gestão municipal procura reduzir os chamados “pontos cegos” das ações de vigilância, que frequentemente concentram criadouros e influenciam a dinâmica de transmissão nas áreas vizinhas.
Uso de tecnologia e equipamentos no bloqueio do Aedes
Goiânia foi a primeira cidade de Goiás a iniciar, em fevereiro, uma operação estruturada de enfrentamento à dengue em 2026, segundo a administração municipal. Desde o início das ações, os 750 agentes de combate a endemias passaram a empregar bombas costais de Ultra Baixo Volume (UBV) em atividades de bloqueio focal e perifocal do mosquito transmissor. Esse tipo de equipamento é utilizado para aplicação de inseticidas em partículas muito finas, com o objetivo de atingir mosquitos adultos em áreas com casos confirmados da doença.
O uso de UBV é adotado de forma dirigida, principalmente em regiões com registro recente de casos positivados, como medida para reduzir rapidamente a população de vetores adultos. A SMS ressalta que a técnica não substitui a eliminação de criadouros, considerada a principal estratégia de controle, mas funciona como complemento em cenários de aumento de notificações. A atuação simultânea em bloqueio químico, manejo ambiental e orientação à população compõe o conjunto de medidas adotadas pelo município.
O emprego de tablets nas vistorias e de equipamentos de UBV no bloqueio integra uma tendência observada em diferentes capitais brasileiras, que têm buscado associar tecnologia da informação, mapeamento georreferenciado e ferramentas de pulverização seletiva para otimizar recursos. Na avaliação de gestores de saúde pública, esse tipo de arranjo pode reduzir o tempo de resposta a surtos localizados e apoiar decisões estratégicas em situações de alta demanda por atendimento médico.
Corresponsabilidade entre poder público e população
Ao detalhar as ações da Operação de Enfrentamento à Dengue 2026, o secretário municipal de Saúde, Luiz Pellizzer, destacou que o êxito das medidas depende da corresponsabilidade entre governo e moradores. Segundo ele, a dinâmica de transmissão da dengue está diretamente relacionada ao comportamento das pessoas em relação aos ambientes que ocupam e aos resíduos que produzem, o que torna indispensável a adoção de rotinas domésticas de prevenção.
Pellizzer enfatiza a importância de manter calhas e ralos limpos, cobrir caixas d’água, tratar regularmente piscinas e garantir o descarte adequado de pneus, garrafas plásticas, recipientes e entulhos. Também ressalta que vasos e pratos de plantas devem conter areia, de forma a evitar o acúmulo de água parada. Esse conjunto de cuidados é considerado decisivo para reduzir o número de criadouros domiciliares, que historicamente respondem por parcela significativa dos focos do Aedes aegypti em áreas urbanas.
A prefeitura argumenta que as intervenções estruturadas, como o uso de tablets, a inspeção de imóveis de risco e o emprego de bombas UBV, só atingem o potencial máximo quando combinadas com o engajamento da população em ações de rotina. Em contextos de elevada incidência de dengue, a redução da transmissão tende a exigir tanto capacidade de resposta institucional quanto mudanças sustentadas de comportamento na esfera privada.
Desafios persistentes no controle da dengue
Embora a adoção de tecnologias e o reforço das ações de campo representem avanços na gestão do risco sanitário em Goiânia, o controle da dengue permanece como desafio estrutural no país. Fatores como urbanização acelerada, ocupação irregular, falhas no manejo de resíduos sólidos e variações climáticas favoráveis à proliferação do mosquito contribuem para a recorrência de surtos sazonais. Nesse cenário, gestores de saúde têm buscado estratégias de médio e longo prazo que transcendam respostas emergenciais.
Em Goiânia, a expectativa da SMS é que o acompanhamento em tempo real das vistorias, viabilizado pelos tablets, permita identificar padrões de reincidência de focos e orientar ações integradas com outras áreas da administração, como planejamento urbano, limpeza pública e fiscalização de posturas. A criação de séries históricas mais detalhadas, com base nos registros digitais, pode apoiar o desenho de políticas públicas mais focalizadas em territórios vulneráveis.
Ao mesmo tempo, a operação de 2026 ocorre em um contexto nacional de atenção redobrada à circulação de arboviroses, o que aumenta a pressão sobre sistemas municipais de saúde. A combinação de monitoramento tecnológico, base legal para acesso a imóveis de risco, uso de equipamentos de bloqueio vetorial e articulação com a sociedade civil tende a ser determinante para reduzir o impacto da dengue sobre a rede assistencial e sobre indicadores de morbimortalidade. A experiência de Goiânia, ao integrar diferentes instrumentos em uma mesma estratégia, será observada como referência para outras administrações municipais que enfrentam desafios semelhantes.
Foto: Alex Malheiros
Comentários
Participe da conversa! Lembre-se de ser respeitoso e seguir nossas regras.
Aviso Legal: Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste portal. Nos reservamos o direito de excluir comentários que violem nossas regras. Internet NÃO é terra sem lei! Comentários ofensivos podem ser punidos conforme legislação vigente.
Faça login para comentar!
Para participar da conversa e compartilhar sua opinião, você precisa estar logado em sua conta.
Apenas usuários cadastrados podem comentar. Isso mantém nossa comunidade segura e respeitosa.