O ataque ao campo de gás Pars, no Irã, nesta quarta-feira (18), marcou uma nova escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Teerã, com impactos imediatos sobre o mercado global de energia. A ofensiva contra uma das principais áreas de produção de gás natural do planeta ajudou a impulsionar os preços internacionais do petróleo, elevou a aversão ao risco nos mercados financeiros e ampliou as preocupações com a segurança do abastecimento de combustíveis.
O campo de gás Pars corresponde ao lado iraniano do maior depósito de gás natural do mundo, compartilhado com o Catar, no Golfo. A infraestrutura foi atingida em um momento em que o conflito já havia se estendido para além do território iraniano. Em resposta às ações dos EUA e de Israel, Teerã lançou mísseis contra o Catar e a Arábia Saudita, com foco declarado em alvos de petróleo e gás em todo o Golfo.
Infraestrutura energética sob ataque no Golfo
No Catar, a estatal QatarEnergy informou que a cidade industrial de Ras Laffan, um dos principais polos da indústria de energia do país, sofreu “danos extensos” após ser atingida por mísseis iranianos. A área abriga unidades vitais para a produção e exportação de gás natural liquefeito (GNL), atividade central para o papel do país como um dos maiores fornecedores globais do insumo.
A Arábia Saudita relatou ter interceptado e destruído quatro mísseis balísticos disparados em direção a Riad na mesma quarta-feira, além de frustrar uma tentativa de ataque com drones a uma instalação de gás no leste do país. Os Emirados Árabes Unidos também condenaram o ataque ao campo de gás Pars e à infraestrutura energética da região, reforçando o temor de uma escalada que envolva diretamente grandes produtores de petróleo e gás do Golfo.
Teerã declarou ainda uma lista de instalações regionais classificadas como “alvos diretos e legítimos”. Entre elas, a Refinaria Samref e o Complexo Petroquímico de Jubail, na Arábia Saudita; o Campo de Gás Al Hosn, nos Emirados Árabes Unidos; e o Complexo Petroquímico de Mesaieed, a Mesaieed Holding Company e Ras Laffan, no Catar. O Irã chegou a recomendar que essas unidades fossem evacuadas imediatamente, sinalizando a possibilidade de novos ataques em curto prazo.
No caso de Pars, relatos locais indicaram que tanques de gás e partes de uma refinaria foram atingidos. Trabalhadores foram evacuados e, posteriormente, autoridades iranianas afirmaram que o incêndio estava sob controle. Ainda assim, analistas consideram que o simples fato de o campo ter se tornado alvo eleva o prêmio de risco geopolítico embutido nas cotações de petróleo e gás.
Impacto imediato no petróleo, no diesel e nos mercados
A ofensiva contra o campo de gás Pars e a ampliação dos ataques na região do Golfo ocorreram em um cenário já tensionado no mercado de energia. Os preços de referência do petróleo Brent avançaram cerca de 5%, superando o patamar de US$ 108 por barril. O movimento refletiu a percepção de que a guerra deixou de afetar apenas o transporte marítimo e passou a ameaçar de forma mais direta a infraestrutura produtiva de petróleo e gás.
Nos Estados Unidos, o impacto sobre os combustíveis começou a se refletir com maior intensidade. O preço do diesel superou US$ 5 por galão, nível não observado desde a onda inflacionária de 2022, que contribuiu para corroer a popularidade do então presidente Joe Biden. A alta recente dos combustíveis amplia os desafios políticos para o atual presidente, Donald Trump, em um momento de sensibilidade econômica doméstica.
Indicadores de inflação ao produtor nos EUA já vinham em aceleração. Em fevereiro, os preços ao produtor registraram a maior alta em sete meses, impulsionados por custos mais elevados de serviços e de uma ampla gama de mercadorias. A continuidade da guerra e a escalada no Golfo tendem a adicionar pressão adicional, via preços de petróleo e derivados, sobre cadeias produtivas globais.
Os mercados acionários reagiram com queda generalizada, refletindo a combinação de incerteza geopolítica, risco de choque de oferta de energia e perspectivas de inflação mais alta. Em Washington, o vice-presidente JD Vance adiantou que o governo Trump deve anunciar “algumas coisas” nas próximas 24 a 48 horas para mitigar o impacto do aumento dos preços do gás, sem detalhar, por ora, eventuais medidas.
Estreito de Ormuz e risco sistêmico para o abastecimento
A escalada militar no Golfo ocorre em paralelo ao fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã. Por essa rota marítima estratégica passa cerca de 20% de todo o fornecimento global de petróleo e de gás natural liquefeito. Inicialmente, consumidores e importadores avaliavam que a interrupção poderia ser temporária, desde que a infraestrutura de produção da região não fosse diretamente atacada.
Com o ataque ao campo de gás Pars e as ameaças explícitas a refinarias e complexos petroquímicos na Arábia Saudita, no Catar e nos Emirados Árabes Unidos, cresce o temor de um choque de oferta mais prolongado. A conjugação entre restrições de navegação no Estreito de Ormuz e danos estruturais à capacidade produtiva regional poderia configurar a maior disrupção no fornecimento de energia em décadas.
A chefe de Política Externa da União Europeia, Kaja Kallas, em contato telefônico com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que a passagem segura pelo Estreito é prioridade para a Europa. O bloco defende uma solução diplomática para o conflito, diante do alto grau de dependência de muitos países europeus de importações de combustíveis fósseis oriundos ou escoados pela região do Golfo.
Conflito se amplia para Líbano e atinge alta cúpula iraniana
Enquanto a infraestrutura de energia no Golfo se converte em alvo estratégico, o conflito também se intensifica em outras frentes. Forças israelenses realizaram ataques aéreos ao centro de Beirute, destruindo edifícios residenciais em uma das mais intensas ofensivas na capital libanesa em décadas.
Israel também intensificou ações contra a cúpula do aparato de segurança iraniano. O ministro da Inteligência do Irã, Esmail Khatib, foi morto um dia após a eliminação de Ali Larijani, chefe de Segurança considerado uma das figuras mais influentes do regime. Autoridades israelenses indicaram que não há imunidade para autoridades iranianas de alto escalão, e que os militares foram autorizados…
Em Teerã, milhares de pessoas participaram do funeral de Larijani e de outros dirigentes mortos. Como retaliação, o Irã lançou mísseis contra Israel, que, segundo autoridades israelenses, causaram a morte de duas pessoas nas proximidades de Tel Aviv. Teerã afirmou ter disparado mísseis contra Tel Aviv, Haifa e Beersheba, bem como contra bases americanas situadas em Barein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Nos Estados Unidos, a chefe de Espionagem Tulsi Gabbard declarou ao Congresso que, embora o governo iraniano tenha sido enfraquecido desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o regime permanece funcional e ainda dispõe de capacidade para atacar interesses norte-americanos e de aliados no Oriente Médio. A avaliação reforça a perspectiva de um conflito prolongado, com repercussões persistentes sobre a segurança energética regional e global.
Repercussões políticas e incertezas à frente
A conjugação entre escalada militar, choque potencial de oferta de energia e aceleração inflacionária cria um quadro de elevada complexidade política e econômica. Para a Casa Branca, o aumento dos preços de combustíveis em um patamar sensível para consumidores e empresas representa um desafio adicional, em um ambiente em que a memória da inflação recente permanece viva.
Para países importadores de energia, especialmente na Europa e na Ásia, a continuidade dos ataques a instalações como o campo de gás Pars, Ras Laffan, Jubail ou Samref representa um risco direto à segurança de abastecimento. A necessidade de diversificar fornecedores, recompor estoques estratégicos e, possivelmente, rever políticas de transição energética tende a ganhar centralidade nos próximos meses, a depender da evolução do conflito.
Do ponto de vista estritamente energético, a ofensiva contra o campo de gás Pars simboliza uma mudança de patamar na guerra entre EUA, Israel e Irã. Ao transformar em alvo um ativo central da produção de gás no Golfo, a crise deixa de ser apenas um fator de pressão geopolítica e passa a se configurar como vetor de risco estrutural…