O déficit acumulado das empresas estatais federais nos dez primeiros meses de 2025 aproxima‑se do resultado negativo de todo o ano anterior, exacerbando a pressão sobre as contas públicas e impondo desafios ao processo de elaboração orçamentária e à agenda de investimentos do governo federal. A medição utilizada pelo Banco Central, que considera a variação da dívida das estatais desde…
Metodologia e escopo das estatísticas
O indicador do Banco Central contabiliza apenas a variação da dívida, conceito alinhado a análises fiscais internacionais, enquanto o governo adota a métrica "acima da linha" (receitas menos despesas). A série do BC contempla 20 empresas estatais federais, entre as quais figuram Correios, Emgepron, Hemobrás, Casa da Moeda, Infraero, Serpro, Dataprev e Emgea. A discrepância metodológica contribui para leituras distintas sobre a dimensão e a natureza do déficit.
Caso Correios e impacto no resultado agregado
Os Correios registraram deterioração acentuada em 2024 e 2025, com déficit superior a R$ 2,5 bilhões no primeiro exercício citado e prejuízo acumulado que ultrapassou R$ 4 bilhões até o primeiro semestre de 2025. Projeções citadas pela reportagem indicam risco de elevação para cerca de R$ 10 bilhões ao final de 2025 e até R$ 23 bilhões em 2026 na…
"Não vejo um debate dentro do governo sobre privatizar Correios. Não vejo isso acontecer da parte de nenhum ministro que tenha proposto isso. Inclusive porque fizemos levantamento mais recente sobre a situação dos serviços postais no mundo. E é muito difícil um Estado nacional abrir mão de serviços postais, até porque parte dos quais são mesmo subsidiados para garantir a universalização", disse Haddad.
Eletronuclear e a equação custo‑benefício de Angra 3
O programa nuclear também aparece entre as fontes de risco fiscal. Estudos do BNDES estimam que a conclusão de Angra 3 demandaria cerca de R$ 24 bilhões, ao passo que a paralisação do empreendimento implicaria custos estimados entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões. A Eletronuclear aguarda decisão estratégica: o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, afirmou que o…
"Tomada a decisão, a gente tem de correr para tomar a melhor solução financeira, de continuidade ou não, e todo esse ecossistema ao redor. Importante para o país tomar uma decisão definitiva. Não está no nosso radar fazer um aporte imediato, nesse ano ainda. Tesouro e BNDES vão se dedicar a ter uma solução", disse Rogério Ceron.
Outras empresas sob observação e implicações fiscais
O Relatório de Riscos Fiscais da União 2025, elaborado pelo Tesouro Nacional, aponta sinais de fragilidade também na Casa da Moeda, na Infraero e nas companhias docas de cinco estados (Pará, Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia e Rio de Janeiro). Esses potenciais passivos podem demandar aportes públicos, ampliando o déficit fiscal e reduzindo espaço orçamentário para outras prioridades.
O Ministério da Gestão, em nota, ressaltou que o déficit primário não equivale necessariamente a prejuízo operacional: entre as 20 empresas consideradas na estatística do BC, 15 registraram lucro no primeiro semestre de 2025, totalizando R$ 1,7 bilhão, embora simultaneamente tenham apresentado variação da dívida que resulta em déficit primário para fins da série fiscal. O ministério destacou que aumentos…
Dados agregados e leitura ampla do setor
Ao considerar o universo ampliado, incluindo Petrobras e bancos públicos, o ministério informou que 39 das 44 estatais reportaram faturamento de R$ 655,3 bilhões no primeiro semestre de 2025, com lucro agregado de R$ 92,4 bilhões — alta de 54,4% em relação ao mesmo período de 2024. Esses números evidenciam que o desempenho operacional do conjunto das estatais é heterogêneo:…
A coexistência de resultados operacionais robustos em algumas empresas e déficits fiscais em outras impõe complexidade à avaliação da "saúde" do setor estatal e reclama análises desagregadas sobre sustentabilidade financeira, capacidade de investimento e necessidades de suporte público.
Conclusão
O rombo parcial das estatais federais em 2025 expõe uma tensão entre demandas de investimento público, pressões sobre o teto orçamentário e a necessidade de decisões estratégicas sobre empresas com elevada relevância operacional ou custo de descontinuidade, como os Correios e a Eletronuclear. A divergência metodológica entre as medidas do Banco Central e a abordagem "acima da linha" do governo…
Fonte: Relatório do Banco Central, Relatório de Riscos Fiscais da União 2025 do Tesouro Nacional, levantamento do BNDES e nota do Ministério da Gestão