Pré-natal ainda preocupa no Brasil

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Imagine se preparar seu pré-natal durante nove meses para a chegada do seu bebê, sonhando com um parto tranquilo, e, na hora H, seu maior pesadelo é… um bisturi ou alguém empurrando a sua barriga como se estivesse tentando fechar a mala de viagem na volta das férias. A boa notícia é que essa cena digna de filme antigo está,…

Nos últimos dez anos, quase vimos sumir a episiotomia – aquele corte para “ajudar” o bebê a sair – no Sistema Único de Saúde, despencando de 47% para apenas 7% nos partos vaginais. Já a temida manobra de Kristeller (o clássico empurrão na barriga ou até mesmo um “alpinismo obstétrico”) caiu de 36% para 9%. No sistema privado, então, virou…

Mas não é só isso. Nunca foi tão grande o número de gestantes que puderam andar, comer (inclusive aquele pãozinho salgado no meio da madrugada!), ou escolher como querem parir – de pé, agachadas, de cócoras… No Rio de Janeiro, por exemplo, a cena da mulher presa na ‘lithotomia’, de pernas para o alto, praticamente virou peça de museu. Uma revolução silenciosa está acontecendo nos corredores das maternidades.

Pré-natal e a analgesia

Por outro lado, nem tudo são flores nesse jardim do nascimento. Uma padronização digna de reality show ainda resiste em áreas sensíveis. O uso da analgesia – o famoso alívio para as dores das contrações – caiu visivelmente, sobretudo no SUS, com apenas 2% das mulheres recebendo essa opção no Brasil e míseros 1% no Rio. Se a dor do…

Agora, prepare-se para números dignos de ficar de cabelo em pé: a taxa de cesáreas segue como novela repetida. No SUS, subiu para 48%, e nos hospitais privados, atinge impressionantes 81% em todo o país e 86% no Rio – bem além dos 15% recomendados internacionalmente. A boa notícia: pelo menos cresceu o percentual de cesarianas feitas só depois do parto começar, o que costuma ser mais indicado. E os partos vaginais também ganharam algum fôlego, avançando devagarzinho.

A parte realmente preocupante está no pré-natal, que deveria ser um “SPA do acompanhamento médico” e ainda deixa a desejar. Quase todas as gestantes fazem consultas, mas só um terço tem exames essenciais — pressão, glicemia, acompanhamento bem certinho. Menos de um terço toma as vacinas indicadas, e a prescrição vital de ácido fólico fica esquecida no bloco de notas…

Esses números mostram que, se por um lado estamos virando a página de práticas antiquadas (e francamente dolorosas), ainda tem muito capítulo pela frente até tornar o parto brasileiro uma experiência segura, humana e, por que não, acolhedora. Chegou a hora de exigir, juntos, que cada mãe e cada bebê possam escrever suas histórias de nascimento com menos riscos, mais respeito e, acima de tudo, com dignidade.